Tatu-bola segue ameaçado de extinção 12 anos após inspirar mascote 'Fuleco' da Copa do Mundo no Brasil

  • 14/06/2026
(Foto: Reprodução)
Tatu-bola segue ameaçado de extinção 12 anos após inspirar mascote 'Fuleco' Menor que uma bola de futebol e espécie exclusiva da fauna brasileira, o tatu-bola marcou a Copa do Mundo de 2014 sediada no Brasil por ter inspirado o mascote oficial do campeonato, o Fuleco. Já naquela época, o animal estava ameaçado de extinção. ➡️ Mais de dez anos depois e próximo da Copa 2026, a situação é a mesma. De acordo com a Associação Caatinga, organização da sociedade civil que atua na conservação do bioma Caatinga, o tatu-bola perdeu cerca de 50% de sua área de ocorrência natural nos últimos 27 anos e continua sofrendo com desmatamento e caça. Ao ser escolhido como mascote na Copa de 2014, o intuito era debater sua preservação. Houve avanços, mas o cenário ainda preocupa. LEIA TAMBÉM: Paciente do IJF com lesão na medula recebe procedimento com polilaminina A longevidade não pode ser resumida à expectativa de vida Para tentar amenizar o problema e pensar em novas estratégias de preservação, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) dará início a um novo ciclo do PAN Tatá — Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tamanduá-bandeira, Tatu-canastra e Tatu-bola. Espécie símbolo da biodiversidade brasileira perdeu cerca de 50% de sua área de ocorrência natural e continua sofrendo com desmatamento e degradação ambiental na Caatinga e no Cerrado. Samuel Portela/Associação Caatinga Samuel Portela, coordenador de Conservação da Biodiversidade da Associação Caatinga, explica que o PAN Tatá reúne especialistas de todo o país e traça objetivos gerais e específicos para cada espécie. Para o coordenador, esta nova edição da Copa do Mundo pode ser um momento importante para relembrar e refletir sobre a preservação do 'Fuleco'. "O PAN Tatá tem várias ações relacionadas à redução da perda de habitat, como criar novas unidades de conservação, ampliar as unidades de conservação já existentes, restaurar áreas degradadas, etc. Tem ações de combate à incêndio florestal, ações para redução de atropelamento dessas espécies e mais. A partir das ameaças que são identificadas, é traçada uma lista de objetivos e ações". Tatu-bola está classificado como vulnerável à extinção O animal tem a capacidade de curvar completamente sua carapaça sobre o corpo para se proteger. Samuel Portela/Associação Caatinga Atualmente, o tatu-bola está classificado como vulnerável à extinção. Isso significa que ele enfrenta um risco alto de desaparecer da natureza. Nesta mesma situação, estão outros animais como a Anta, o Lobo-guará e a Onça pintada, conforme o ICMBio. Um relatório do instituto atualizado sobre a fauna no Brasil traz um alerta preocupante: 1.264 espécies estão ameaçadas de extinção no país. O documento aponta que os principais fatores de ameaça estão ligados a atividades humanas, como expansão agrícola e pecuária, urbanização e poluição, e mineração. Ceará tem cenário preocupante Exclusivo da fauna brasileira, o tatu-bola ocorre em dois biomas: a Caatinga e o Cerrado. Samuel Portela/Associação Caatinga Se nacionalmente a situação é delicada, o Ceará tem um cenário ainda mais alarmante. De acordo com Samuel Portela, o tatu-bola aparece no estado como criticamente ameaçado, um dos status mais extremos. "No Ceará, há pouquíssimos registros dessa espécie. A gente teve uma ocorrência em 2023 em Crateús e outra na região do Cariri. É uma espécie que dentro do estado quase dá para dizer que está extinta . Há uma ocorrência maior para o lado do Piauí, Bahia... A lista de fauna ameaçada de extinção no estado do Ceará é bem grande", comenta Samuel. Os motivos que levam à extinção quase completa do tatu-bola são a caça e a perda de seu habitat natural. Com a redução das florestas, ampliação das áreas de cultivo e queimadas, os ambientes dessa espécie são prejudicados e, gradualmente, o bichinho vai desaparecendo. Mais de 1,2 mil animais da fauna brasileira estão ameaçados, diz ICMBio. Marcelo Cabral / Agência Brasil Além de inspirar um carismático mascote, o tatu-bola funciona como um "termômetro da natureza" e tem um papel essencial na manutenção do ecossistema. A ausência dessa espécie em uma região pode significar que o local sofreu uma transformação negativa e já não é um ambiente estável para os animais. "Ele é símbolo da conservação. É um animal que gosta de áreas abertas, daquele tipo de caatinga mais espaçada. A gente tem o tatu-bola como uma espécie bandeira ou guarda-chuva. O ambiente em que ele vive é, na maioria das vezes, mais conservado, naturalmente estável. Se ele está ali, é porque o ambiente está bom". O Tolypeutes tricinctus não recebe a popular denominação de tatu-bola à toa. Pequeno, ele pode chegar a cerca de dois quilos quando adulto, mas tem a capacidade de curvar completamente sua carapaça sobre o corpo para se proteger. Dessa maneira, ele fica no formato de uma bola e impede a aproximação de predadores, que não conseguem penetrar a carcaça. Apesar da estratégia, ele se torna presa fácil ao realizar este movimento, pois caçadores conseguem pegá-lo do chão com facilidade. O bichinho tem hábitos geralmente noturnos e cava tocas rasas. O tatu-bola se alimenta de cupins e outros insetos, além de pequenos frutos durante a época chuvosa. Para abrigo, eles também podem utilizar depressões do terreno ou se cobrir com folhas. Durante a época de acasalamento, observa-se mais de um macho acompanhando uma mesma fêmea, o que facilita a captura de vários exemplares por vez. Se encontrar esse animal no habitat dele, simplesmente deixe lá. Mas se ele estiver fora do seu ambiente natural, como na casa de alguém, deve-se entrar em contato com o ICMBio ou com o Ibama. Esses órgãos vão recolher a espécie, avaliar se ela tem condições de voltar para a natureza e dar a destinação adequada. Caso o animal não possa retornar ao meio ambiente, ele provavelmente será encaminhado a um zoológico para auxiliar nas ações de conservação e reprodução Em mais de dez anos, o que mudou? Especialista alerta para degradação da Caatinga e possível extinção do tatu-bola O pesquisador Samuel Portela foi um dos especialistas que lutou para que o tatu-bola fosse eleito mascote da Copa do Mundo no Brasil em 2014. A Associação Caatinga lançou a campanha, que teve a cidade de Crateús como principal base, com o intuito de ampliar o debate sobre preservação ambiental. Depois de eleito, o bichinho virou símbolo da cidade e até ganhou uma escultura feita de engrenagens na praça central do município. Tatu-bola ganhou escultura feita de engrenagens na praça central de Crateús. André Teixeira/g1 "Ele foi escolhido depois de uma campanha pesada que a gente fez para que o maior evento esportivo do mundo deixasse também um legado ambiental para o país sede. Conseguimos iniciar algumas ações relacionadas à conservação dele, identificando novas áreas de ocorrência, principalmente em Buriti dos Montes, no Piauí, e propondo a criação de novas unidades de conservação nessas áreas", explica Portela. O maior avanço, segundo o coordenador, foi a criação de áreas protegidas que somam 24 mil hectares em locais de ocorrência da espécie. Isso resultou na criação de dois parques estaduais: Parque Estadual do Cânion do Rio Poti (no limite do Ceará, mas pertencente ao Piauí); Posteriormente, o Parque Estadual do Cânion Cearense do Rio Poti. ➡️ Com o novo ciclo do PAN Tatá, a espécie deve ganhar novas estratégias de preservação. "Diante do que a espécie precisa, estamos ainda engatinhando (em relação às estratégias de preservação). A gente precisa de muito apoio ainda para implementar novas ações, de políticas públicas focadas na ampliação de unidades de conservação para proteger essas áreas de ocorrência da espécie", alerta Samuel. Fuleco, o mascote da Copa, no Maracanã. Alexandre Durão / G1 Após a mobilização em 2014, o 'Fuleco' caiu no gosto do público brasileiro. Ele ganhou um uniforme com as cores da Seleção e até uma carapaça azul. O nome foi escolhido em votação realizada pela TV Globo e concorria com Zuzeco e Amijubi. Quem lembra?! Exatamente 12 anos depois, o Brasil se prepara para competir em outra Copa do Mundo, que ocorrerá nos Estados Unidos, México e Canadá. Serão três mascotes, também animais que representam os países: águia careca, jaguar e um alce, respectivamente. "O bom é trazer de volta esse assunto, para que o nome da espécie esteja em pauta novamente, lembrar que o tatu-bola existe, é exclusivamente nosso. O recado que a gente tem é tomar cuidado com o nosso habitat, com as nossas florestas, tentar preservar. Podemos fazer nosso dever de casa", conclui Samuel Portela. Tatu-bola inspirou mascote Fuleco na Copa de 2014 no Brasil. Samuel Portela/ Associação Caatinga e Toshifumi Kitamura/AFP Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/06/14/tatu-bola-segue-ameacado-de-extincao-12-anos-apos-inspirar-mascote-fuleco-da-copa-do-mundo-no-brasil.ghtml


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